RITOS DE PASSAGEM E ESQUECIMENTO

Rito de passagem: “celebração que marca a mudança de status de uma pessoa no seio de sua comunidade”.
Em algumas culturas, esses ritos envolvem processos mentais e físicos, alguns bastante dolorosos, quase mortais. Não à toa, marcam pelo resto da vida, para o bem e para o mal do “iniciado”. Sim, porque um rito de passagem, como a própria definição mostra, é uma mudança de status.
Esses ritos ocorrem em vários âmbitos e níveis sociais, religiosos ou outros grupos de afinidade, sejam abertos, exclusivos ou secretos. Também ocorre para homens e mulheres ao longo da vida.
Em função desses ritos, há quem se ache ou se perca. Também há quem nunca evolua.
Certa vez, num curso, o docente abordou esse tema de uma forma “matemática”, descrevendo fases que podem ocorrer pessoalmente e profissionalmente como se fossem parábolas. Destacou que, ao atingir o ápice de uma fase, é necessário evoluir para outro nível. Não fazê-lo tende a resultar em comodismo ou progressiva decrepitude.
Explicou que essa transição não significa uma ruptura ou revolução, mas uma evolução que envolve mudança de atitude perante a profissão, relacionamentos e a própria vida.
A aposentadoria pode ser considerada um desses ritos de passagem.
Já vi casos, inclusive próximos, de pessoas cuja aposentadoria veio acompanhada de sentimentos de inutilidade e obsolescência, que resultaram em quadros depressivos, com severas consequências neurológicas.
Conheço pessoas que morreram poucos anos após a aposentadoria, por não encontrarem nada de útil ou prazeroso para preencher seu cotidiano.
Felizmente, existem os que não se entregam, mantendo a vivacidade e curiosidade, sempre buscando aprender e ensinar o pouco ou muito que sabem.
Esse talvez seja o principal antídoto para um dos principais medos que esse rito de passagem pode representar: o de ser esquecido!
A aposentadoria pode representar uma perda de rumo para quem não está preparado para ela, agravada na medida em que as limitações físicas ocorrem.
Lembrei do filme “Cocoon” (1985).
Estou próximo de me aposentar…
Para mim, isso é uma conquista, pois, desde 2017, não sabia se chegaria a tanto. Aliás, essa incerteza foi motivadora, pois me tornei mais produtivo, mais consciente como ser humano e profissional.
Desde 2012 sou membro da Academia Santista de Letras, o que me tornou um “imortal”.
Para quem não sabe, a imortalidade “acadêmica” não é uma presunção arrogante, mas uma condição decorrente de um fato: cada novo ocupante de uma cadeira obrigatoriamente deve citar seus predecessores. Mas isso ocorre somente nesse contexto.
Assim, é preciso estar preparado para ser esquecido, não viver de passado e, principalmente, não esquecer de si.
Para tanto, é necessário buscar motivações, novos projetos, realizar sonhos represados. Enfim, buscar novas formas de viver!
Esse rito de passagem não pode nem deve ser o derradeiro. A vida não merece isso!
Adilson Luiz Gonçalves
Escritor, Engenheiro, Pesquisador Universitário e membro da Academia Santista de Letras








