O voto termina na urna. A escolha, não

O voto termina na urna. A escolha, não.
Por Madalena Carvalho
Daqui a poucos dias, milhões de brasileiros estarão diante de uma urna eletrônica. Serão poucos minutos: alguns números digitados, a confirmação e, por fim, aquela palavra conhecida na tela: FIM
Mas fim de quê? Certamente não das consequências da escolha que acabamos de fazer.
Nas Eleições Gerais de 2026, mais de 158 milhões de pessoas estão aptas a votar. No primeiro turno, em 4 de outubro, escolheremos presidente da República, governadores, senadores, deputados federais, estaduais e distritais.
É muita gente escolhendo quem terá poder para tomar decisões que afetarão a vida de todos nós. Por isso, talvez seja importante falar menos sobre em quem votar e um pouco mais sobre como fazemos essa escolha.
Não pretendo defender candidato, partido, ideologia ou qualquer lado desse tabuleiro. Se você chegar ao fim deste artigo sem descobrir em quem votarei, terei cumprido meu propósito.
O que me interessa aqui somos nós e a responsabilidade que acompanha cada escolha.
Escolhemos uma profissão, relacionamentos, empresas, sociedades, investimentos e caminhos. Algumas decisões dão certo. Outras nos fazem perguntar, anos depois: “Onde eu estava com a cabeça?” Faz parte da vida.
Na política, porém, às vezes agimos como se nossa responsabilidade terminasse no instante em que apertamos o botão verde.
Não termina.
A Constituição estabelece que a soberania popular é exercida pelo sufrágio universal e pelo voto direto e secreto, com valor igual para todos.
Na urna, todo voto tem o mesmo peso. Mas a reflexão que o antecede pertence a cada um de nós. Cobramos responsabilidade de deputados, senadores, governadores e presidentes e devemos continuar cobrando. Mas talvez também precisemos fazer uma pergunta menos frequente: qual é a responsabilidade de quem escolhe?
Trabalho com comportamento humano há quase três décadas. Nesse período, aprendi algo que vale para as empresas, para os relacionamentos e também para a política: não somos tão racionais quanto gostamos de imaginar. Nossas decisões são atravessadas por emoções, crenças, experiências, medos, simpatias, antipatias e pelo desejo muito humano de pertencer.
Podemos gostar de um candidato antes mesmo de conhecer suas propostas. Podemos rejeitá-lo antes de ouvi-lo. Tendemos a aceitar com mais facilidade as informações que confirmam aquilo em que já acreditamos e a desconfiar das que desafiam nossas convicções.
Há ainda um risco maior: transformar políticos em objetos de devoção. Político não precisa ser amado. Precisa ser observado, questionado, acompanhado e cobrado. Democracia não pede torcida. Pede participação.
Talvez um dos sinais mais claros de maturidade política seja conseguir olhar criticamente até mesmo para o candidato de quem gostamos. Quando deixamos de questionar alguém apenas porque ele está “do nosso lado”, abrimos mão de parte da nossa capacidade de escolher.
Imagine uma situação fora da política. Sua empresa precisa contratar alguém para uma posição de enorme responsabilidade. Essa pessoa administrará recursos importantes, tomará decisões que afetarão muita gente e terá poder para influenciar os rumos da organização durante os próximos anos.
Você a contrataria porque gostou de um vídeo de 30 segundos? Porque alguém da família falou bem dela? Porque ela diz exatamente o que você gosta de ouvir? Ou simplesmente porque você detesta o outro candidato à vaga? Provavelmente não.
Você procuraria conhecer sua trajetória, entender o que ela já fez, avaliar suas competências, analisar suas propostas e buscar referências. Também tentaria descobrir se aquilo que ela promete fazer realmente está entre as responsabilidades da função que deseja ocupar.
Por que usar critérios menos cuidadosos quando a vaga é pública?
O Tribunal Superior Eleitoral mantém um Guia do Voto Consciente que recomenda a busca por informações confiáveis e o conhecimento das funções dos cargos eletivos e das atribuições dos Poderes da República. Isso é essencial porque presidente, governador, senador e deputado não exercem as mesmas funções.
Prometer é fácil. Descobrir se o candidato terá poder legal para cumprir o que promete exige um pouco mais de atenção.
Além de perguntar “Eu gosto deste candidato?”, poderíamos refletir:
– O que ele realmente propõe?
– O que sua trajetória revela?
– Suas promessas estão entre as atribuições do cargo?
– Quais são suas prioridades?
– Como elas se relacionam com o que considero importante para o país?
– Estou buscando informações diferentes ou consumindo apenas aquilo que confirma minhas crenças?
E há uma pergunta ainda mais desconfortável: Estou escolhendo alguém ou apenas votando contra alguém?
Não há uma única resposta correta para essas questões. E ainda bem.
Este talvez seja um dos pontos mais importantes desta reflexão. Duas pessoas podem pesquisar com seriedade, conhecer propostas, avaliar trajetórias e refletir sobre as prioridades do país — e ainda assim chegar a escolhas completamente diferentes.
Isso não significa, necessariamente, que uma delas seja ignorante, mal-intencionada ou incapaz de pensar. Pode apenas significar que elas atribuem pesos diferentes aos problemas e às possíveis soluções. A democracia não pressupõe unanimidade. Se todos pensássemos da mesma maneira, talvez nem precisássemos votar.

Mentora de executivos e equipes há 28 anos.
Provoco líderes a encontrarem clareza, verdade e presença em um mundo movido pela urgência.
O desafio é discordar sem transformar quem pensa diferente em inimigo. Consciência política não pode significar “pense como eu”. Significa assumir responsabilidade pela própria escolha.
Em outubro, estaremos diante da urna. Digitaremos alguns números, confirmaremos nossas escolhas e veremos na tela: FIM.
Mas aquela decisão continuará presente. Estará nas leis propostas, debatidas e votadas. Nas prioridades estabelecidas, nos recursos públicos administrados e nas políticas implementadas. Estará nas decisões que afetarão nossa vida e a de milhões de pessoas durante os próximos anos.
E estará também na nossa responsabilidade de acompanhar aqueles que elegemos. Votar não deveria significar entregar o poder e voltar quatro anos depois para descobrir o que fizeram com ele. Antes de perguntarmos apenas “Em quem vou votar?”, talvez seja necessário fazer uma pergunta anterior: Que responsabilidade estou disposto a assumir pela escolha que farei?
Escolher leva alguns segundos. Conviver com a escolha leva anos. Talvez democracia seja também isso: compreender que o direito de escolher traz consigo a responsabilidade de pensar antes, acompanhar depois e não terceirizar completamente as consequências do que decidimos.
Afinal, o voto termina na urna. A escolha, não.
Madalena Carvalho – Mentora de executivos e equipes há 29 anos. Provoco líderes a encontrar clareza, verdade e presença em um mundo movido pela urgência. Ex-candidata a vereadora nas eleições de 2023 por São Paulo, SP.








