Inspirado por vivências pessoais, João Victor Melchiades convida o leitor a uma reflexão sobre empatia e justiça social

Em um cenário marcado por injustiças, perseguições e mentiras institucionalizadas, Os Contos de Obélia propõe mais do que uma aventura fantástica — oferece uma crítica sensível e contundente ao preconceito contra jovens adotados. Com base em sua própria experiência como filho adotivo, João Victor Melchiades construiu a fictícia Obélia como um espelho simbólico de uma sociedade real que ainda marginaliza e silenciada. A destruição, o medo e a violência ganham forma nas ruas da cidade, mas é através da esperança e da humanidade dos personagens que a resistência se ergue.

Entre metáforas potentes, poderes extraordinários e dores muito humanas, a trama mostra que é possível transformar em força e romper ciclos de exclusão. Na entrevista abaixo, o autor fala sobre a origem da obra, a importância da representatividade e o papel da literatura como instrumento de transformação.

1. Em “Os Contos de Obélia” os filhos adotivos são vítimas de crueldades por causa de ideologias que supervalorizam os laços sanguíneos e defendem a sucessão de poder familiar. O que você motivou para escrever este enredo?

João Victor Melchiades: Desde a infância, sempre tive uma conversa aberta sobre meu acolhimento com toda a minha família. Conforme cresci, presenciei diferentes opiniões sobre minha adoção. Muitos se emocionaram por saberem do amor que sempre receberam dos meus familiares, já outros se preocuparam, acreditando que eu me entristeceria ou me ofenderia. A verdadeira motivação surgiu aos meus 15 anos, quando experimentei um acontecimento questionável.

Na minha época de escola, quando ainda estava desenvolvendo o enredo do livro, recebemos a tarefa de debater e defender pontos escolhidos pelo professor. Um colega meu, que conhecia minha história de vida, apresentou o seguinte argumento para “vencer” o debate: “A adoção não é uma coisa boa, porque muitas crianças podem se tornar delinquentes.” Naquele instante, comecei a notar a opinião negativa de várias pessoas sobre o tema, principalmente por se basearem no medo e na preocupação de uma possível “revolta” da criança ou do adolescente. Sendo assim, surgiu a ideia da sociedade seletiva e impiedosa da grande cidade de Obélia, aquela que persegue adoçãos.

2. Entre guerras, violências e desigualdades profundas, a população de Obélia vive sob mentiras de tiranos. Como este enredo reflete questões enfrentadas na atualidade?

JM: As injustiças apresentadas na sociedade de Obélia não se diferenciam tanto das injustiças reais. Diversas pessoas se esforçam dia após dia para elevar as condições de sua vida, mas, por muitas vezes, são capazes apenas de “sobreviver”. Muitos conflitos surgem por desavenças egoístas e pouco discutidas, pois diversas guerras poderiam ser resolvidas com acordos ou debates comprometidos com a busca pela paz. A população é cegada por narrativas que favorecem os mal-intencionados e pouco se atentam às evidências visíveis que surgem. Ambas as sociedades, tanto ficcionais quanto reais, apresentam suas semelhantes. Por esse motivo, o livro aborda tais temáticas no intuito de lançarem o pensamento crítico e a realização da reflexão sobre situações tão atuais.

3. Por meio de uma linguagem repleta de simbolismos e reflexões, você exalta a esperança como ferramenta de resistência. Como estes elementos são apresentados para combater as hostilidades em prol da transformação social?

JM: A esperança é uma força poderosa. Com ela, nossas vontades de levá-la para melhorar o mundo surgem, principalmente onde as luzes da esperança não chegam. Por meio deste sentimento, diversas pessoas beneficiam de auxílios para os necessitados, oferecendo-lhes alimentação, moradia, saneamento e dignidade. É nessa esperança que todos de Obélia, inclusive aquele que vai visitá-la, devem acreditar. Enquanto a sociedade fictícia do livro não melhora e os adotivos continuam a ser julgados, os esperançosos lutam em nome do que é correto. Já nesta sociedade, em nossa realidade, enquanto as injustiças e julgamentos persistirem, elevemos nossa voz e tenhamos esperança.

4. Ao longo da trama, os protagonistas precisam lidar com a dor da exclusão, a construção da autonomia e o controle das próprias habilidades. A partir disso, qual é a mensagem que você busca transmitir para seus leitores?

JM: As tarefas do dia a dia nos ocupam intensamente. Por muitas vezes, sentimos medo, dores, receitas e angústias. Mesmo possuindo habilidades sobre-humanas e únicas, os protagonistas possuem uma característica principal que nos une: “a humanidade”. Eles não são diferentes dos leitores que terão a oportunidade de conhecer Obélia, muito menos em meio às dificuldades da vida. Suas lutas são humanas e mortais, desde a primeira até a última página do livro. Assim como os jovens que presenciaram o caos instaurado em Obélia, cada pessoa possui sua forma de enfrentar as dificuldades. Essa é a mensagem principal de suas vivências e experiências descritas no enredo.

5. Para esta publicação, você conta com o incentivo da Lei Paulo Gustavo. Na sua visão, qual é a importância desses projetos para a cultura brasileira?

JM: Sem este auxílio da Lei Paulo Gustavo, “Os Contos de Obélia” não estariam disponíveis hoje. Esta história poderia ficar escondida em alguma gaveta, esperando um momento distante para ser publicada e oferecida a demais. Muitos jovens possuem outras maneiras de se expressar, descrevendo e revelando o mundo em que vivem, os sonhos que possuem e as ideias que os formam. Para contar desta lei de incentivo cultural, diversos novos artistas puderam criar ou difundir suas ideias e projetos, buscando trazer lazer, reflexão e conhecimento a todos que desejam participar da cultura. Em meio a um mercado repleto de artistas experientes e conhecidos, tais incentivos auxiliam no lançamento de novos nomes e talentos na cultura nacional.

Sobre o autor: João Victor Melchiades, que assina como JV Melchiades , é escritor e profissional de marketing formado pela Faculdade Anhanguera. Nascido em São João dos Patos, no Maranhão, ele mora em Ubatuba, em São Paulo. Filho adotivo, publicou Os Contos de Obélia por meio da Lei Paulo Gustavo, com objetivo de conscientizar sobre a adoção.

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