BORGS

            A série Jornada nas Estrelas (1966-1969) foi inovadora em múltiplos sentidos.

            Os primeiros alienígenas que nos foram apresentados eram vulcanos, klingons e romulanos, cada um com características que remetiam a culturas conhecidas na história da humanidade, e ainda presentes.

            No entanto, foi na série A Nova Geração (1987-1994) que surgiram os personagens que considero mais intrigantes: os borgs, híbridos de seres vivos e máquina, conectados entre si, o que os tornava iguais, apesar das diferenças estéticas e de origem.

            Seu objetivo não era destruir seres vivos, mas assimilá-los, torná-los parte da rede. A experiência de cada um era imediatamente repassada aos outros, numa aprendizagem coletiva, de maneira que aprendiam a cumprir sua missão de forma cada vez mais objetiva e eficaz.

            Suas consciências permaneciam intactas, mas inacessíveis, bloqueadas pela consciência comum, controlada por um provedor universal, onipotente.

            Sua aparência era a do ser assimilado, contando com uma série de “inserts” tecnológicos que os tornavam combatentes poderosos, cheios de recursos e sem escrúpulos, empatia ou compaixão.

            Isso deve ser um “sonho de consumo” para alguns.

            No final da década de 2000, ouvi um pesquisador afirmar que 2029 seria o “ano da singularidade”: um marco em que ser humano e máquina seriam um novo ente, de uma nova humanidade, híbrida.

           O desenvolvimento de dispositivos que permitem ativar sentidos ou funções orgânicas já é uma realidade. Pessoas já têm seus sinais vitais remotamente controlados!

            De certa forma, os borgs já existem! E tudo isso sem falar em engenharia genética.

            O que vem a público sobre estudos científicos e tecnologias parece ser apenas a “ponta do iceberg”.

            Nos laboratórios do mundo, muita coisa já foi desenvolvida e está em fase de aplicação, sem que nenhuma discussão ética tenha ocorrido de forma aberta.

            Financiadores, estatais e públicos, têm interesses estratégicos que são mantidos em completo sigilo, e sempre existirão cientistas dispostos a provar que “é possível”, mesmo que se arrependam de suas “criaturas”, quando já for tarde demais.

            A vida imita a arte, mas a arte, sobretudo no que se refere a obras de ficção científica, se baseia na ciência ou nos futurólogos. Ou seja, o que a arte sugere pode já existir ou estar em processo.

            Como diria o Sr. Spock: “Fascinante!” No entanto, é preciso estarmos atentos, para que o fascínio não nos tolha o discernimento e a noção de consequências, e para que não corramos o risco de um dia também sermos quais os borgs, até porque quem estiver no controle poderá, a seu bel-prazer, nos desligar.

Adilson Luiz Gonçalves

Escritor, Engenheiro, Pesquisador Universitário

Membro da Academia Santista de Letras

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