A SINFONIA DO SILÊNCIO
O amor era como a marca pálida deixada por um quadro removido após anos de vida sobre uma mesma parede. O amor produzira um vago intervalo em seu espírito, na transparência dos seus olhos, na pintura envelhecida da sua existência.
Adriana Lisboa

Por Margarete Hülsendeger
Há livros que contam uma história. E há livros que nos colocam diante de uma dor difícil de nomear. Em Sinfonia em branco, Adriana Lisboa acompanha a trajetória de Clarice e Maria Inês, duas irmãs marcadas por um trauma de infância que continua reverberando na vida adulta. O romance prende não por grandes reviravoltas, mas pela tensão silenciosa que atravessa a narrativa. Desde o início, fica a sensação de que algo foi quebrado cedo demais e de que suas consequências nunca deixaram de agir.
No centro do romance estão essas duas irmãs, cujas vidas são profundamente alteradas por uma experiência traumática. Adriana Lisboa trata esse núcleo doloroso com cuidado e contenção. Ela não expõe tudo de forma direta, nem transforma o sofrimento em choque fácil. Aos poucos, o leitor entende que há uma violência íntima na origem daquela dor, e que seus efeitos continuam presentes nas relações, nas escolhas e na forma como cada um enfrenta a vida.
A força do romance está justamente aí. Sinfonia em branco. O romance não fala apenas da violência, mas do silêncio que a sustenta. O que destrói as duas irmãs não é só o trauma em si, mas também o segredo, a omissão, a incapacidade de nomear o que aconteceu. Adriana Lisboa mostra com precisão como o silêncio não protege: ele prolonga a dor. O que não é dito não desaparece; apenas continua agindo de outra maneira.

Esse peso se espalha por toda a família. O pai surge como uma figura opressiva e sombria. A mãe percebe a infelicidade ao redor, mas não consegue romper a lógica que aprisiona a casa. Já Clarice e Maria Inês chegam à vida adulta marcadas não apenas pelo que viveram, mas também por tudo o que precisou ser calado.
No caso de Maria Inês, isso aparece na dificuldade de viver plenamente o amor. Tomás, antigo amante, atravessa o romance como uma presença meio suspensa, ligada mais à lembrança do que à realização de um vínculo. A relação entre os dois parece sempre limitada por algo que o passado não deixa florescer. O trauma atinge também a capacidade de confiar, de se entregar e de sustentar intimidade.
Clarice, por sua vez, encarna de modo mais visível o desgaste provocado por essa violência silenciada. Sua vida adulta, marcada por um casamento passivo e por uma postura de submissão, sugere o efeito prolongado de alguém que aprendeu cedo a anular a própria vontade. Antes do vício e do colapso mental, porém, vem a fuga do casamento, primeiro gesto real de ruptura. Depois disso, o desgaste se aprofunda, como se anos de dor não elaborada corroessem por dentro qualquer possibilidade de equilíbrio.
A forma do romance acompanha bem esse universo emocional. A narrativa não é linear, e isso az sentido. A memória do trauma não se apresenta em linha reta: ela retorna em pedaços, em imagens soltas, em cenas que só aos poucos se conectam. Adriana Lisboa trabalha muito bem com essas lacunas, e grande parte da força do livro nasce dessa recusa de explicar tudo.
Ainda assim, Sinfonia em branco não é um romance excessivo. Ao contrário: a escrita de Adriana Lisboa é contida, precisa e delicada, o que torna o livro ainda mais impactante. A construção da história gera certa ansiedade no leitor, que avança tentando compreender o que o romance revela pouco a pouco. O que impressiona, no fim, é o domínio da linguagem diante de uma matéria tão dolorosa.

Mas o romance não se fecha apenas na dor. Ao longo do livro, surge a percepção de que viver depois do trauma não significa superá-lo por completo, e sim encontrar uma forma de não continuar submetido a ele. Esse movimento aparece no percurso final das duas irmãs. Adriana Lisboa não transforma isso em redenção fácil, e esse é um dos méritos do romance. O que surge no horizonte não é uma cura completa, mas a chance real de interromper um ciclo.
Autora de livros como Rakushisha, Azul-corvo, Hanói e Um beijo de colombina, Adriana Lisboa confirma, em Sinfonia em branco, a força de uma escrita atenta ao mundo interior das personagens. Foi com esse romance que recebeu o Prêmio José Saramago, reconhecimento que ajuda a dimensionar a força da obra dentro de sua trajetória.
No fim, Sinfonia em branco permanece porque toca num ponto difícil e muito real: certas violências não acabam quando acontecem. Elas continuam agindo na memória, no corpo, nos afetos e na linguagem. Ao acompanhar a trajetória de Clarice e Maria Inês, Adriana Lisboa constrói um romance sobre trauma e silenciamento, mas também sobre a difícil tentativa de quebrar a continuidade da dor. Não é um livro de respostas simples, e talvez seja justamente por isso que permaneça tanto tempo com o leitor.






