ONDE O CUIDADO TERMINA E O CONTROLE COMEÇA

Pensei em como é desconfortável ser trancado do lado de fora. E em como pode ser pior ser trancado do lado de dentro.

Virginia Woolf

a barefooted woman sitting on floor beside vases with flowers
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Por Margarete Hülsendeger

“Não precisa trabalhar, eu sustento a casa”, ele diz no começo, como quem oferece segurança. Às vezes, a frase até soa generosa. Mas o tempo costuma desmontar certas promessas. O que parecia cuidado vira controle. Depois vêm outras frases, ditas com naturalidade suficiente para parecerem normais: “Você não sabe administrar dinheiro”, “Cartão pra quê?”, “Você me pede e eu vejo se dá”. E assim, sem alarde, ela vai deixando de decidir sobre a própria vida.

Muita gente ainda associa violência doméstica como sinônimo de tapa, empurrão, ameaça ou grito. Mas há violências que se instalam de outro jeito. Entram pela rotina, se escondem nos detalhes e mudam a vida por dentro. A violência econômica é uma delas. Ela começa quando o dinheiro deixa de servir à vida em comum e passa a ser usado para controlar, limitar e humilhar.

Isso aparece em situações que muita gente aprendeu a tratar como normais. A mulher precisa de dinheiro para comprar remédio, comida, passagem ou um item de higiene e, em vez de simplesmente resolver o que precisa, é obrigada a explicar, justificar e ouvir cobrança. O que deveria ser simples vira constrangimento. O necessário passa a depender de autorização.

Essa lógica se apoia numa ideia antiga, mas persistente: a de que o homem é o provedor e, por isso, teria algum direito especial sobre o dinheiro da casa. Essa ideia continua de pé mesmo quando a mulher trabalha fora, recebe salário e ajuda a sustentar a família. Mesmo assim, muitas precisam prestar contas ao marido ou ao companheiro, como se o dinheiro que ganham estivesse sempre sob vigilância. Mudam os tempos, mudam os discursos, mas certas formas de controle continuam quase intactas.

É por isso que a pergunta “por que ela não sai?” costuma vir carregada de pressa e pouca compreensão. Sair de uma relação abusiva não depende apenas de coragem. Depende de ter para onde ir, de conseguir pagar as contas, de sustentar os filhos, de contar com alguém, de acreditar que é possível recomeçar. Quem vive muito tempo sob controle financeiro não perde só autonomia. Vai perdendo também a segurança, a confiança e, em muitos casos, a noção de que pode conduzir a própria vida.

Margarete Hülsendeger – Possui graduação em Licenciatura Plena em Física pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (1985), Mestrado em Educação em Ciências e Matemática pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (2002-2004), Mestrado em Teoria da Literatura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (2014-2015) e Doutorado em Teoria da Literatura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (2016-2020). Foi professora titular na disciplina de Física em escolas de ensino particular. É escritora, com textos publicados em revistas e sites literários, capítulos de livros, publicando, em 2011, pela EDIPUCRS, obra intitulada “E Todavia se Move” e, pela mesma editora, em 2014, a obra “Um diálogo improvável: homens e mulheres que fizeram história”.

E esse tipo de violência quase nunca vem sozinho. Ele se mistura com humilhação, isolamento e desgaste emocional. Aos poucos, a mulher deixa de sair, evita pedir, desiste de procurar trabalho, se afasta de familiares e adia planos até não saber mais se ainda tem algum. O controle do dinheiro não atinge só a conta bancária. Atinge a autoestima, a liberdade e a capacidade de escolha.

Talvez por isso seja tão difícil nomear essa violência. Durante muito tempo, fomos ensinados a confundir autoridade com responsabilidade e controle com proteção. Mas não há proteção quando alguém precisa pedir dinheiro para o básico e ainda ser humilhada. Não há cuidado quando uma pessoa perde o direito de decidir sobre o que faz, o que compra e até por onde pode andar.

Falar de violência econômica é necessário porque ela segue sendo tratada como algo menor. Quando alguém diz “ele não bate, só controla o dinheiro”, esse “só” mostra o tamanho do engano. Impedir a mulher de trabalhar, vigiar seus gastos, esconder informações financeiras, fazer dívidas em seu nome ou obrigá-la a prestar contas de cada centavo também é violência. E, muitas vezes, é justamente isso que a mantém presa.

No fim, o dinheiro, que deveria servir à vida, passa a servir ao controle. E quando uma pessoa precisa de permissão até para atender às próprias necessidades, o problema já deixou de ser apenas financeiro. O nome disso é perda de liberdade.

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