EU TENHO MEDO DE POLÍCIA, DE BANDIDO, DE CACHORRO, DE DENTISTA… E DO AUGUSTO CURY!

[CUIDADO, ZEHZEIRA!]

EU TENHO MEDO DE POLÍCIA, DE BANDIDO, DE CACHORRO, DE DENTISTA… E DO AUGUSTO CURY!

Por Zeh Gustavo

Pela primeira vez na história deste país-coluna, vou direto ao ponto: #augustocurynão. Diante da pseudopsicologia envernizada do homônimo de construtora, eu prefiro lidar com a agressividade – como apontada por Cury – da anta do MBL, e falo sério! Deleuze dizia que o grande inimigo da filosofia era a publicidade. E estava agudamente certo: a linguagem que sustenta a sociedade do consumo vem diuturnamente, há décadas, comprimindo o pensamento a pílulas de sabedoria, como os memes. Tá, e onde entra o Cury nessa história, Zehzeira que prometeu ser, desta vez, diretão?!

Pois bem: a autoajuda, esta pílula dourada e adorada de compressão do saber, é, como linguagem, a maior inimiga, por natureza, da arte da palavra. A autoajuda engoliu a literatura! Ela a substituiu no imaginário comum, dando como fácil o que era difícil, ao reduzir a metáfora, o estilo, o mergulho poético em recursos elitistas de quem não quer se comunicar, e o como viver, pergunta que desde sempre nos atormenta e também impulsiona, a um objeto de condicionamento.

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O capixaba Sérgio Sampaio, que sentou bastante praça pelo Rio, era considerado um maldito. Radialista, na música bolerento e seresteiro, Sampaio viveu a apanhar como ladrão, por não se adequar ao receituário de bom-mocismo com que adoram enfeitar e domesticar artistas – daí o rótulo de maldito. Em Polícia bandido cachorro dentista, Sampaio bole com uma crítica social cuja voz se situa à margem também por convicção estético-política e mesmo existencial. Vida outra, nos termos foucaultianos, ou seja: de não dar seu aceite ao sequestro da subjetividade pelo poder; marginal por condição, e próprio tempero, e reinvento. O preço, a gente sabe, é caro – mas a obra fica.

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Início do mês, geral pediu a cabeça do Múcio. Calma, gente: embora todo borrado, o ômi deve dispor de um plano top de defesa nacional, do tipo abrir os portões, deixar o Trump entrar e depois comer ele de porrada. Nunca duvidem da capacidade de um engenheiro que também é compositor (ouvi-lo-ei, meu ministro!) e que começou a vida como um bom patriota da velha Arena.

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Descoberta recente: na música Odeio rodeio, gravada pela primeira vez com Rita Lee, em 2005, Chico César desanca o certanojo – esse modelo de negócio estético-industrial voltado para a pasteurização da moda de viola, que tem uma vinculação, digamos, pouco republicana com o agrobusiness e a politicalha bolsofascista. O termo que cunhei para falar desse troço de péssimo gosto, que adora um elogio da bebedeira sem lastro com qualquer forma de boêmia criativa e um sentimentalismo de fachada, parece ter saído da letra de César, pérola que ora reproduzo na íntegra, por abundância de espaço:

Odeio rodeio e sinto um certo nojo

Quando um sertanejo começa a tocar

Eu sei que é preconceito, mas ninguém é perfeito

Me deixem desabafar

A calça apertada, a loura suada, aquele poeirão

A dupla cantando e um louco gritando: Segura peão

Me tira a calma, me fere a alma, me corta o coração

Se é luxo ou é lixo, quem sabe é o bicho que sofre o esporão

É bom pro mercado de disco e de gado, laranja e trator

Mas quem corta a cana não pega na grana, não vê nem a cor

Respeito Barretos, Franca, Rio Preto e todo o interior

Mas não sou texano, a ninguém engano, não me engane, amor

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É na autoajuda que se apoia cada burro ilustrado de nossa malta para soltar aquele velho: Eu leio muitos livros!, com seus consequentes sociais Fulano é muito culto! Ele lê MUITOS livros! No processo de sequestro do subjetivo, tudo precisa virar produto de fácil entretenimento; daí,não se persegue mais a arte, nem os artistas. Ela, e eles, só precisam continuar invisibilizados, se não derem conta (exige $) de furar a própria bolha e virar produto de consumo imediato e descartável.

A autoajuda foi importantíssima, nesse sentido, porque ajudou a isolar a literatura numa área, torná-la uma coisa estanque, que só a gente metida da Akadimia deve acessar. Ninguém lê mais romances, adota um poema como mote de vida ou de um momento difícil ou feliz. No geralzão do tempo, só lê literatura quem é daquela área ou se move por um objetivo específico, como reconhecimento identitário.

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O certanojo é flor fétida de algoritmo do mesmo ramo da autoajuda. E notem: falo do certanojo com a mesma graçade liberdade crítica com que falo do pagonejo – e sou um dos poucos do samba, hoje em dia, a fazê-lo publicamente. Não, não se trata de não ser eclético (ai que preguiça!). Pastiches que enriquecem uns poucos, sacrificam a memória musical e coletiva de um dos cancioneiros mais valorizados no mundo, engessam a criatividade e disseminam chorumes de letra e melismas vocais mal-executados como padrões estéticos incontestes merecem o bom combate. Azar da esquerda, que nem tenta, e se cala a aplaudir celebridades em alinhamento, convencida que parece estar de fazer esse joguete – ou por não ter proposta mesmo, o que me parece mais razoável. E não, não tem espaço pra todo mundo, meus polianas queridos! Certanojos e pagonejos tomaram, junto com o funk-ostentação (!), a crentinice e o piseiro boca-de-ovo, 99,99% do mercado. E mais alguma coisinha!

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RECALL FILOSÓFICO-LÉXICO-EXISTENCIAL DO ZEHZEIRA

Episódio de hoje – tóxico, empregado como adjetivo em expressões como relacionamento tóxico. Pois. Tóxica:diz-se de uma sociedade que tudo rotula e patologiza para vender produtos e fórmulas rasas de como viver, que medica sem a raiz social/existencial do drama humano tratar ou combater, que limita dizendo liberar, que pasteuriza para conter o mergulho no profano profundo. Afeto generalizado é bem menos que amor, real, ao outro. Nenhum entretenimento hypado limpa sequer a chinela de uma arte sincera.

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Sim, requentei o assunto: não dá pra normalizar um ministro de Estado de Defesa brasileiro, em plena vigência do Plano Maga de tomar as Américas para os americanos (leia-se: os estadunidenses do Laranjão), falar em escancarar as portas diante da ameaça (por enquanto) velada de invasão de nosso território.

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Augusto Cury deve crescer nas pesquisas, porque domina o universo metódico e asséptico da linguagem morna, aquela que não desagrada a ninguém, nem mesmo a quem não gosta de ler. A autoajuda é uma técnica de engodo, algo como um placebo para o cérebro, uma gatunagem que afana de qualquer assunto abordado a faceta de complexidade que veste toda experiência humana. O livro de autoajuda é raso e traiçoeiro. A autoajuda joga baixo – vende uma casa que não existe, para quem não tem onde morar.

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Ah, os malditos… Nunca precisamos tanto deles! A caretice é um dado científico de nosso tempo, vide o sucesso dos Curys aí da vida. Liberdades capturadas e autovigiadas têm bem pouco de liberdades. Ademais, quando uma sociedade passa a viver sitiada num ambiente – ainda por cima, virtual! –, a coçar o dedo para se posicionar pelo tema que surja na pauta do dia (manipulada por um algoritmo), doidinha para apontá-lo para o amiguinho do lado (virtual!), porque ele tem porque tem que parar de passar pano para isso, ou não pode se calar diante daquilo… Se esse tipo de cobrança está no ar, tempo inteiro, temos um tempo, sim, evidentemente moralista.

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Uma das propostas do Augusto Cury como candidato a presidente (Jô, me tira os tubos!) é criar o SUS da Mente. Como se o SUS já não tivesse toda uma expertise acumulada de atendimento psicossocial e mesmo de lida com a pressão diária de um mercado ávido de adoecimento. Investir na saúde pública; no SUS, nesse SUS que não isola a mente do corpo de um indivíduo, tampouco esse indivíduo do seu contexto socioeconômico, que não pode ser ignorado?! Não. Trata-se de patologizar mais, que tá pouco! O representante do Partido da Autoajuda quer é o SUS Demente.

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Momento IA (não conta pra ninguém!): “O termo poliana vem do famoso livro infantojuvenil Pollyanna (1913), escrito por Eleanor H. Porter. A personagem principal cria o chamado jogo do contente, que consiste em encontrar motivos para sorrir e ser grato independentemente dos problemas enfrentados.”

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Odeio pagonejo. E sinto um certo nojo quando o pagodeiro começa a miar.

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Quer um conselho não solicitado do Zehzeira?! Não contenha artistas. Esquece recomendar terapia quando o artista sofre de amor, profissionalismo empreendedor quando ele está na durindana, até papo de amigo se ele quiser só sentar a bunda num botequim e encher a cara. Não mexa com seu destilado, seu cigarro, seu rancor. Ademais, esquece também quaisquer outras bulas abjetas de como encaixotar gentes – não fale com artistas sobre isso; eles podem, jardsmacaleanamente, chorar.

Zeh Gustavo
Zeh Gustavo, carioca, filósofo do cotidiano foucaltiano é sambista de rua, compositor, escritor, revisor. Publicou, entre outros, os livros Uma vírgula no findomundo, Contrarresiliente e Eu algum na multidão de motocicletas verdes agonizantes (vencedor do Prêmio Lima Barreto, da Academia Carioca de Letras) e co-organizou, com Rafael Maieiro, a coletânea poética “Jumento com Faixa: deboches e antiodes ao fascismo“, do qual Zeh é também um dos autores. Na cantoria, fez parte, como cantador, de grupos como o Terreiro de Breque, Cordão do Prata Preta, Samba da Saúde e Banda da Conceição e hoje atua solo como intérprete em Cuidado, Zehzeira!, seu primeiro álbum, de que fazem parte a autoral “Mignon com queijo magro” e a regravação de “Beto bom de bola”, de Sérgio Ricardo. Em 2021, fez a produção fonográfica e cantou em duas faixas do álbum musical “Raiz e folha: o cancioneiro de Zeh Gustavo”, gravado pela cantora baiana Kell Santos inteiramente com composições de Zeh.

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