Crônicas nair lucia de britto

O terrível pesadelo das guerras

Nair Lúcia de Britto

Abri a porta de casa para sair. E, na rua, surpreendi-me com um estranho cenário à minha frente. Qual o significado de, derrepente, tudo aquilo?…

Fiquei parada, sem coragem de dar um passo na direção de onde eu pretendia ir. Apenas olhava, olhava, sem nada entender…

 

Não havia ninguém na rua, pelo menos aquelas pessoas comuns.  As portas das casas estavam fechadas e as janelas também.

Também não havia nenhum carro transitando nas imediações; refiro-me àqueles que, no dia a dia, eu costumava ver. Mas as ruas não estavam vazias…

Tanques de guerra transitavam tranquilamente pelas ruas. Caminhões de guerra também. Alguns soldados caminhavam a pé; entravam ou saíam de alguma casa silenciosa. Provavelmente, os moradores deviam estar muito assustados, apavorados; com medo do que lhes podia acontecer.

Eu também estava apavorada. Céus, estaríamos em guerra? Isso era horrível! E agora? O que iria acontecer?

 

Lembrei-me de relatos que mamãe costumava fazer quando eu era criança. Um deles foi durante um episódio de luta armada.

Dizia-me ela que, mesmo estando bem distante dos campos de bombardeio, a nossa pacata cidade de Santos também sofria as consequências. Por exemplo,  era difícil encontrar alimentos para comprar; faltava comida e muitas vezes éramos obrigados a passar fome.

— Um dia, seu avô saiu de casa para comprar pão. Sabia que não seria fácil achar. Mas para alimentar a família não titubiou em sair para procurar.

— E ele achou, mamãe?

— Qual o quê! Ficamos em casa esperando e seu avô nada de voltar! Todos nós ficamos muito preocupados, sem saber o porquê da sua demora. E sua avó, muito nervosa, começou a chorar.

— E onde o vovô estava? – perguntei a ela.

— Seu avô foi confundido não sei com quem e preso por policiais. Estava na cadeia, minha filha! Já pensou? Ele, um homem justo, honesto, trabalhador, preso injustamente! Mas, felizmente, ele conseguiu provar sua inocência e, graças a Deus, voltou para casa. Foi uma festa!

— Credo, mamãe que horror! Eu amo meu avô! Que maldade essa, que fizeram com ele!

— É, minha filha! A guerra é algo terrível! O povo é quem sofre. Justamente as pessoas mais frágeis, inocentes e que não têm nada a ver com isso… Só quem passou por uma guerra pode avaliar como é horrível…

 

Naquele momento, diante daquele cenário de guerra que eu estava presenciando, eu me lembrei das palavras de mamãe, na minha tenra infância…

Senti um calafrio, será que estávamos em guerra? Seria isso possível?  Aquele cenário não era de um filme, nem uma daquelas tristes imagens dos noticiários da tevê… Estava acontecendo bem na minha frente, e eu não sabia o que fazer…

 

Mas, graças a Deus, o pesadelo acabou assim que eu acordei. As imagens desse pesadelo foram tão nítidas e tão impactantes que só poderiam ser um alerta para que algo se faça para que não aconteçam mais guerras, para que não haja mais sofrimento.

Um alerta que deveria ser direcionado principalmente para os líderes políticos para que cultivem a paz, a concórdia, o diálogo. Que saibam resolver os problemas com inteligência, humanidade e sabedoria; e jamais, com violência.

 

“A vingança é o último vestígio abandonado pelos costumes bárbaros” e que portanto deve ser abandonado por um povo evoluído. Contraria o que Cristo nos ensinou: “Perdoai vossos inimigos!”

A vingança é o mais vil dos sentimentos e jamais deve estar presente no coração de um bom cidadão. Quando alguém se vinga de um malfeitor, torna-se um malfeitor igual aquele que o ofendeu. O homem de bem ignora-o e age de forma completamente oposta ao seu opositor; ou seja dignamente, mostrando-se superior.

 

O povo, que é a maior vítima das tragédias provocadas pelas guerras, que não poupam nem as criancinhas inocentes, pode e deve agir contra as guerras.

Como? Escolhendo bem seus líderes políticos, os sábios, os inteligentes, os pacíficos, que tenham uma Educação refinada e bons sentimentos.

Arte: Peter Dennis

 

Nair Lúcia é poeta, jornalista, escritora e colaboradora da Revista Partes

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