“QUANDO EU OLHO NO ESPELHO,…

… estou ficando velho e acabado!”, cantava Cassiano, nos idos de 1976. Eu tinha, então, 16 anos e era cheio de sonhos.
Era?
Certa vez, fiz uma letra de música, que tinha como refrão: “Sonho nunca envelhece, só fica maduro; não aceita cerca, laço, porta ou muro!”
Hoje, mais velho e consciente, mas não menos sonhador, embora capricorniano, percebo que sonhar, principalmente acordado, é qual um elixir da juventude.
Ainda não descobriram a “cura” para a velhice e, francamente, talvez isso seja uma bênção, pois envelhecer duplamente, física e mentalmente, não vale a pena, principalmente quando deixamos de sonhar, de inovar; quando ficamos velhos de espírito, mal-humorados ou críticos de tudo. No mais, já dizia Freddy Mercury: “Who wants to live forever?”, se bem que ele abreviou até demais sua vida, infelizmente.
O que importa é viver bem! E Guilherme Arantes já deu a dica: “O melhor ainda está por vir!”.
Confesso que perdi muito tempo, na juventude, por conta da introversão. Precisei sair radicalmente de casa, para outro país, bem distante; encontrar Cecília e começar a lecionar para me ligar ao mundo, deixar de ser um mero espectador para ser ator, ora protagonista, ora coadjuvante, mas nunca figurante.
Lecionando, planejando, projetando ou executando, já próximo de sete décadas, continuo tratando problemas como matéria-prima e nunca me coloquei no patamar rarefeito de quem acha que sabe tudo.
Saber tudo…
Só os arrogantes têm certezas “absolutas”. Apenas os estúpidos acreditam ser o limite do conhecimento, mitos auto-atribuídos. Só os velhos de espírito acreditam ter todas as respostas.
A experiência não traz todas as respostas! Apenas acumula variáveis de uma equação sempre mutante: a da vida! E nem todas são determinantes nesse imponderável que depende dos caminhos que escolhemos, de quem encontramos nesse percurso e dos que caminham conosco.
Ideias novas me instigam, pois rejuvenescem. Por isso, me entristeço quando vejo jovens com ideias velhas, reféns de mitos, dogmas e pensamentos únicos, bloqueados por preconceitos ou fanatizados por velhos diabos e anjos caídos.
Quando eu olho no espelho, os cabelos brancos não negam o passar do tempo.
Velho?
Não! Enquanto eu tiver Cecília e Guilherme, quem queira ouvir o pouco que sei, me ensinar o que eu ainda ignoro ou esclarecer o que pouco entendo, e alguns neurônios que conversem dialeticamente entre si, envelhecer será uma contingência.
Acabado?
Bem, ainda me sinto ativo e produtivo, pedra bruta em contínuo processo de lapidação. Mantenho o tesão pela vida, por aprender e por amar!
E quem ama não envelhece! Nunca perde a esperança no novo! Sempre está pronto para recomeçar até o fim, que não deixa de ser algo novo, uma deixa da vida para, como diz a música “If”, do Bread: “… would simply fly away!”.
Adilson Luiz Gonçalves
Escritor, Engenheiro Pesquisador Universitário (UNISANTA) e membro da Academia Santista de Letras








