ENTRE O LEGAL E O JUSTO

Sou engenheiro civil, mas, no início da década de 1990, estava frustrado com a falta de perspectiva profissional. Pensei em mudar de área e resolvi prestar vestibular para o curso de Direito.
Minha intenção era tentar a magistratura, por estar inconformado com certas decisões judiciais e suas consequências para o país.
Fui aprovado.
Após muito avaliar, eu e minha mulher concluímos que a jornada tripla não seria adequada aos nossos planos familiares, ainda em início de jornada. Então, não me matriculei.
Hoje, considero que o cenário é ainda mais grave, tantos são os conflitos entre legislações, os pesos e medidas que têm desequilibrado a balança da Justiça, e a cegueira seletiva que caracteriza algumas decisões.
Essa percepção ficou ainda mais evidente com a recente manifestação do jornalista Octávio Guedes:
“No Brasil, os poderosos aprenderam que não precisam provar sua inocência. Eles bastam (sic) anular a investigação”.
Infelizmente, isso tem sido comprovado todos os dias, o que dá a sensação de que nem tudo o que é legal é justo.
O pior é que ninguém é responsabilizado pela reincidência nos crimes dos assim beneficiados. Essa impunidade tem gerado cada vez mais a sensação de que o crime compensa.
Quem prende ainda corre o risco de ser punido ou desautorizado, e as vítimas inocentes se multiplicam, sem guarida por parte de quem deveria protegê-las.
Não à toa, em 2025 o Brasil ocupava a 107ª posição entre os 182 países avaliados no Índice de Percepção da Corrupção (IPC), elaborado pela Transparência Internacional.
Nossos legisladores e quem aplica as leis não se sensibilizam com isso?
É preciso revisar a legislação para que criminosos sejam efetivamente e rigorosamente punidos! Que tenham medo, ao menos!
Isso é imprescindível para inibir reincidências e não só para isso.
Parte da solução passa pela melhoria da formação acadêmica e profissional no Brasil e ação efetiva de governos em prol do desenvolvimento socioeconômico, base para a geração de empregos dignos e estabilidade social.
Sem isso, continuaremos a ver criminosos prosperarem pela impunidade, políticos corruptos pela imunidade, seguindo tradições nefastas, e, pior, que alguns de nossos jovens considerem o crime como opção de vida, que também é de morte, própria ou de outrem.
Se eu tivesse seguido a intenção de outrora, talvez não conseguisse ser o que eu almejava. Tentaria, ao menos.
Nesse ambiente de “Caixa de Pandora”, o que nos resta é perseverar na cobrança de quem de direito e manter nossa integridade, na esperança de dias melhores, em que a justiça nem tarde, nem falhe, e que não precisemos acreditar apenas na divina.
Adilson Luiz Gonçalves
Escritor, Engenheiro, Pesquisador Universitário e membro da Academia Santista de Letras








