DE QUE LADO VOCÊ VIVE?

Quem conhece apenas o seu próprio lado de uma questão conhece pouco até mesmo esse lado.

— John Stuart Mill

Por Margarete Hülsendeger

Outro dia, num grupo de mensagens, alguém compartilhou a fotografia de um pacote de café no supermercado. Queria reclamar do preço, mas a conversa logo deixou o café de lado. Em poucos minutos, entraram em cena o governo atual, o anterior, os impostos, a imprensa e as eleições. Ninguém sabia quanto custava o mesmo café em outra loja, mas quase todos pareciam saber de que lado estavam os demais. A fotografia de uma prateleira havia se transformado em um teste ideológico.

Situações assim se tornaram comuns. Basta um comentário sobre segurança, o nome de um artista, uma piada ou até escolha de determinada palavra para classificar alguém. A partir de um detalhe, imaginamos conhecer todo o resto: em quem a pessoa vota, o que pensa sobre economia, religião e costumes. Em vez de perguntarmos o que alguém pensa, decidimos rapidamente quem essa pessoa é.

Em ano eleitoral, essa tendência fica ainda mais visível. A política sai dos palanques e entra na sala de casa, nos grupos de família, nas amizades e nos hábitos de consumo. Não se escolhem apenas candidatos ou propostas. Adotam-se também símbolos, frases e referências culturais, além de inimigos comuns. É nesse ponto que a polarização deixa de ser apenas uma característica da disputa pública e passa a funcionar como um modo de vida.

A existência de lados, por si só, não ameaça a democracia. Uma sociedade democrática não depende de concordância permanente, mas da capacidade de administrar conflitos sem que um grupo precise silenciar o outro. Muitas conquistas sociais nasceram justamente de emfrentamentos e posições firmes. Às vezes, insistir na conciliação serve apenas para preservar injustiças sob uma aparência de equilíbrio.

Esse fenômeno também não é exclusivamente brasileiro. Nos Estados Unidos e em países europeus, divisões políticas ultrapassam as campanhas e alcançam hábitos, preferências culturais e relações pessoais. Democracias consolidadas não são sociedades sem conflito. O que as sustenta é a existência de regras e limites que impedem que a divergência se transforme em um ataque à própria legitimidade do adversário.

O problema começa quando a posição política ocupa toda a identidade de uma pessoa. Uma coisa é defender uma ideia; outra é depender dela para saber quem se é. A discordância deixa, então, de ser vista como contestação de um argumento e passa a ser sentida como agressão pessoal. O adversário já não está apenas errado: torna-se mau, ignorante, desonesto ou perigoso. Em vez de discutir uma proposta, julgamos o caráter inteiro de quem a apresenta.

Quando a política funciona também como sinal de pertencimento, mudar de ideia pode parecer fraqueza ou traição. A pessoa não teme apenas admitir que estava equivocada; teme perder o grupo que lhe oferece companhia e segurança. A polarização traz, assim, certo conforto: organiza um mundo confuso, distribui papéis e fornece respostas rápidas. De um lado, estariam os lúcidos e bem-intencionados; do outro, os enganados e perigosos. Pensar por conta própria exige conviver com dúvidas. Aderir inteiramente a um lado, ao contrário, oferece uma explicação pronta para quase tudo.

As redes sociais ampliaram esse mecanismo. A indignação circula mais depressa do que a ponderação, e a frase agressiva costuma receber mais atenção do que a pergunta sincera. Muitas manifestações políticas já não procuram convencer quem discorda, mas demonstrar fidelidade a quem concorda. O insulto e a ironia tornam-se sinais de reconhecimento entre integrantes de um mesmo grupo.

Margarete Hülsendeger – Possui graduação em Licenciatura Plena em Física pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (1985), Mestrado em Educação em Ciências e Matemática pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (2002-2004), Mestrado em Teoria da Literatura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (2014-2015) e Doutorado em Teoria da Literatura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (2016-2020). Foi professora titular na disciplina de Física em escolas de ensino particular. É escritora, com textos publicados em revistas e sites literários, capítulos de livros, publicando, em 2011, pela EDIPUCRS, obra intitulada “E Todavia se Move” e, pela mesma editora, em 2014, a obra “Um diálogo improvável: homens e mulheres que fizeram história”.

Seria fácil culpar apenas os algoritmos, mas eles trabalham com desejos que já são nossos: a necessidade de confirmação, a vontade de estar certos e o prazer de assistir à derrota de quem consideramos inimigo. Reclamamos que os políticos dividem o país, embora muitas vezes transformemos essa divisão em entretenimento. Pedimos diálogo, mas esperamos que o outro comece admitindo que está completamente errado.

Reconhecer esse problema não significa afirmar que todas as posições são equivalentes. Há ideias comprometidas com a democracia e outras que a ameaçam. Recusar a violência, a mentira sistemática e o autoritarismo não é fanatismo. Ainda assim, convicções legítimas podem ser defendidas de maneira intolerante, e nenhuma causa se torna mais justa porque seus defensores aprenderam a humilhar melhor.

Talvez seja necessário recuperar a diferença entre firmeza e radicalização. Ter princípios não exige reduzir o outro à pior opinião que ele já expressou. Da mesma forma, discordar não obriga ninguém a tratar cada conversa como uma batalha final. A democracia precisa de adversários porque vive da disputa entre projetos. O que ela dificilmente suporta é uma sociedade formada por inimigos permanentes. O adversário pode perder uma eleição e voltar a concorrer; o inimigo, por definição, precisa desaparecer.

Em tempos de eleição, escolher um lado pode ser necessário. O risco está em permitir que esse lado se transforme numa identidade completa, como se uma pessoa pudesse ser resumida ao voto que deposita na urna. Somos feitos de memórias, afetos, dúvidas e contradições que nenhum partido consegue representar por inteiro. Quando esquecemos isso, deixamos de conversar com pessoas e passamos a enfrentar caricaturas.

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