MANIFESTO CAIXA D’ÁGUA PELA VOLTA DO MATA-MATA: SÓ O REGULAMENTO QUE NINGUÉM ENTENDE PODE NOS SALVAR!

[CUIDADO, ZEHZEIRA!]
MANIFESTO CAIXA D’ÁGUA PELA VOLTA DO MATA-MATA: SÓ O REGULAMENTO QUE NINGUÉM ENTENDE PODE NOS SALVAR!
Antigamente não era assim (como é mesmo bom envelhecer, Nelsão!): os campeonatos tinham turno e returno e o campeão só saía depois de jogos do tipo um contra um – o famoso mata-mata – ou um triangular decisivo, o que era ainda mais emocionante. Os regulamentos desses torneios, muitas vezes ou quase sempre, ninguém entendia direito, mas havia sempre muitos pontos de recuperação pelo caminho – algo relativamente mais próximo da tal de vida. E seu time podia ser campeão mesmo tendo sido quase rebaixado no turno anterior, assim como ser campeão de um turno e quase ser rebaixado no seguinte e depois se sagrar campeão. Ou ser rebaixado.
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Mas diga lá, o Boscão foi cancelado por criticar o identitarismo exagerado e defender as letras de seu parceiro de motim lírico, o bardo Blanc. Na paz e liberdade dos nossos gênios +80, a quem deveríamos escutar com os ouvidos mais atentos – inclusive ao que evitam falar para não dar beó! –, João disse o óbvio ululante: tá faltando poesia e sobrando dedo na cara e lição de conhecimento (e sentimento) raso, sociológico-tecnocrata e – sobretudo – enfadonho.
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Nem Messi, nem Mbappé; nem Yamal, nem Cane (quem?!): o nome da Copa de 2026 foi o Vozinha, que iniciou inclusive a jogada do gol mais lindo do certame, aquele marcado por Deroy Duarte contra a Argentina, na fase de oitavas de final.
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Contrato renovado com o Italianão que mora no Canadá, a CBF já achou a solução do nosso jejum de títulos mundiais. Investir na permanência de nossas joias sem que saiam antes que se formem por completo como jogadores da escola brasileira – aquela do drible, do improviso, da criatividade individual e coletiva? Premiar os clubes que mantenham esses jovens valores, dividindo com eles os riscos e despesas inflacionadas do futebol da era das bets? Ajudar a repatriar craques ainda com idade para brilhar em 2030? Implantar desde as divisões de base da seleção um modelo técnico que incentive a criatividade dos atletas e não apenas o seu desenvolvimento físico e tático?
Não, não. Trata-se de estabelecer metas: ganhar a Copa América e ser o primeiro colocado nas Eliminatórias. Não critiquemos por antecipação: nossos dirigentes devem ter encontrado o gênio da lâmpada ao visitarem a estrela do exímio percussionista e cidadão do Irajá, Paulinho da Costa, na Calçada da Fama em Hollywood…
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O nome de quem tenta consertar o mundo com o dedo na cara das pessoas não é militante – é moralista, mesmo.
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Caixa D’Água era o apelido de Eduardo Viana, uma figura nefasta que dirigiu, à la caralha, por 22 anos, a Federação de Futebol do Rio de Janeiro (Ferj) e que a-ma-va! o possante Americano de Campos, que ele quase enfiou na Primeira Divisão do Campeonato Brasileiro (perdeu a vaga numa decisão de pênaltis!). Seus regulamentos absurdos eram um teste de paciência, e muitos vão dizer que ele causou, lá atrás, o declínio do futebol carioca em detrimento da ascensão dos paulistas, o que por sinal faz sentido mas não explica tudo, nem nada. Como acontece no famoso regulamento que ninguém entende.
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Em temporada até 2 de agosto no MAM-RJ, a obra do baiano modernista em trânsito (Rio, SP, Brasília, Roma…) Rubem Valentim oferece uma geometria de liberdade criativa que o mundo contemporâneo parece ter sufocado em prol de uma ordem do discurso (e do espaço) racionalizante (e racionada, no nível do imaginário poético). O recorte singular da exposição, que perpassa de um cubismo tardio a uma espécie de concretismo encantado presentes na profícua produção de Valentim, mostra óleos, acrílicas e têmperas sobre tela ou madeira, além de incríveis emblemágicos (sic) orientalizados. Ensaia-se aos olhos e sentidos um enigma que termina (ou começaria?!) no seu Templo de Oxalá (êpa, Babá!), cujas peças voltarão, após a exposição no MAM-RJ, ao MAM baiano, localizado no lindoso Solar do Unhão, em Salvador, e cuja visita efusivamente recomendamos.
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O primeiro Brasileirão da Era dos Pontos Corridos data de 2003 – e nossa última taça mundial, de 2002. Desde então, o número de clubes foi enxugado, ignorando o tamanho continental do país, os estádios foram virando arenas com um terço da capacidade original de público dos antigos e o modelo europeu foi perseguido como receita de bolo até mesmo no modo de jogar, nos padrões técnicos e táticos e mesmo na forma de torcer – afinal, precisávamos evoluir! Taí o resultado. Mas segundo o pangaré do João Gomes, ídolo da galera EEDL (ver abaixo), que o trata como o novo Jackson do Pandeiro, e que não ouve mais o Jackson do Pandeiro nem nada parecido, claro, quem tem complexo de vira-latas é quem torce para a Argentina. A vida anda dura até pros mortos, não é mesmo, Nelsão?!
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Respeitosamente, registro que discordo do Boscão ao menos em um ponto: não vai adiantar medicar! Ainda não há tratamento para a hipocondria moral que assola a Empoderada Esquerda Diplomada e Lacrante – EEDL, o que aliás parece sigla de inseticida e funciona de modo bem parecido, se pensarmos bem, agredindo mas igualmente reforçando a resistência do inimigo e fazendo mal, por suposta bonomia, ao próprio amiguinho.
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Por sinal, os argumentos neomoralistas vociferados contra quem, como eu, ladino latino que sou, torci pela Argentina na Copa lembram demais as acusações de elitismo quando a gente defende o samba contra o pagonejo. Falta olhar o rabo: qual o valor melhor em torcer por equipes da colonizadora Europa, a mãe do evidente, sim, racismo argentino? E de apoiar o pagonejo, uma tentativa violenta do Mercado de pasteurizar o samba, sustentando um tem espaço pra todos tão real quanto o Neymar Imaginário?
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Obviamente, o Brasileirão de pontos corridos melhorou o futebol brasileiro em termos de planejamento e profissionalismo. Por outro lado, sabíamos nos virar melhor nas Copas quando entendíamos e vivenciávamos, no dia a dia, a tragicomicidade do mata-mata e seus criativos regulamentos – em que o pior tinha muito mais chance de ganhar do melhor.
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Quer mais? Jogador de futebol não tinha Jr. na composição do nome pelo qual era conhecido, muito menos ostentava um sobrenome – isso só acontecia em caso de duplicidade de nomes no mesmo time (Ricardo Gomes, Ricardo Rocha); ou do cara ser um fora de série que o merecesse (Nilton Santos, Leônidas da Silva, Mauro Galvão). Zico era o Galinho de Quintino, Roberto era Dinamite, Gerson era Gerson Canhotinha de Ouro. Havia toda a sorte de apelidos sonoros ou carinhosos como Garrincha, Didi, Zizinho, Cafuringa, Preguinho. Aos perebas esforçados, restava contentarem-se com Dunga, Alemão, Cafu. Washington e Assis formavam o Casal 20 sem que isso fosse interpretado como apropriação da pauta LGBT (que só tinha 4 letras mesmo), e outras duplas se completavam como pão com manteiga, goiabada com queijo: Bebeto e Romário, Edmundo e Evair, Túlio e Donizete Pantera…
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Por falar no Anjo das Pernas Tortas: em 1958, após o Brasil ganhar o primeiro título mundial, Garrincha deu uma gastada justamente com o fato de a Copa não ter segundo turno. Mané era maluco, mas não era doido: o local era mais valorizado que o global. O mundo era algo mais como a nossa própria casa, em primeiro lugar. Até hoje, poetas, cronistas, compositores e outros seres inúteis da mesma laia ainda acham, e vivem isso, e dispõem suas criações com a alma exposta, fraturada, na bandeja da sociedade do cansaço e da indiferença, do streaming e do mau gosto algoritmizado.
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Sei que não vai adiantar explicar, mas tentemos: Caixa D’Água acho que só não era odiado pela torcida do beneficiado Vasco da Gama de seu tempo, então sob comando, também duradouro, de outro pulha do futebol romântico: Eurico Miranda. Não enaltecemos aqui tais figuras – o Manifesto Caixa D’Água é, antes de tudo, um protesto jocoso, com notas de ironia, acidez maturada e sarcasmo renhido, em plena ressaca de uma Copa do Mundo em que fomos representados por figuras como Danilo Reserva (como lateral direito, um ótimo leitor!), Casemiro Buchecha, Raphinha Cara de Pateta, Cigano Igor (Tiago) e Neymar Imaginário.
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Laranjão é um déspota perna de pau. Em campo, seu time levou um créu da Bélgica e ele, sob vaias da torcida, um drible de corpo humilhante do argentino Romero. Ressabiado, e ciente da má fama do pedófilo gatuno, o capitão do escrete vencedor, Rodri, escondeu bem debaixo do suvaco a taça de campeão e educadamente solicitou a retirada do meliante, antes de erguê-la entre os seus companheiros das mais diversas nacionalidades espanholas. Laranjão se deu foi bem: se safou de ser juntado que nem acontece quando ele brinca de guerra com o Irão.
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Na linha do prodigioso Plano CPF de Refundação do Futebol Brasileiro Apenas Anunciando Metas, eu declaro, humildemente, que as minhas (metas), para o próximo ciclo, são: ganhar o Jabuti, estalar o dedo e não me ver mais, diante do espelho, no modo careca e barrigudo (comendo e me embebedando do que eu quiser), ganhar o Grammy de melhor da porra toda (álbum, intérprete, sambista mais sexy etc.), acertar todo dia no bicho e sair com a Sharon Stone da década de 1990.
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Agora, a cereja do bolo (não se matem, jovens!): naquele tempo não se falava em intensidade, ciclo, atacar espaços, mapa de calor, pentelho esvoaçado como prova de crime no VAR…
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Perscrutamos, com Rubem Valentim, nossas identidades mais ocultas e profundas, nenhuma delas, obviamente, fixas, talvez por isso mesmo negadas ou subtraídas para o útil, o dito, o ágil. Como parece nos dizer Valentim: divindade é busca; e arte, nossa forma de lida e trato para com o desespero – esse desespero demasiado humano que nada deveria impedir, também, de ser tornado, e vivido, de um modo mais belo.









